Cárcere privado ocorre, sobretudo, no âmbito da violência contra a mulher, diz delegada
Cecília da Conceição foi acorrentada pelo ex-marido durante seis meses – Foto: Flavio Tavares
Um sorriso que, já enfraquecido pela crueldade alheia, foi, por fim, arrancado de vez, de maneira brutal. Aos 22 anos, a educadora social Cecília da Conceição perdeu os dentes após ter sido espancada pelo então marido, de 45 anos. As lágrimas que saíam de seus olhos se misturavam ao sangue que também escorria de seu corpo. Isso porque ela também havia tido as entranhas invadidas pelo companheiro que, com uma chave de fenda, tentava arrancar um Dispositivo Intrauterino (DIU). Sentindo que ia morrer, Cecília, em vez de ter sido levada ao médico, foi presa com uma corrente na própria casa, onde ficou em cárcere privado por seis meses. O filho do casal, de 2 anos, presenciou tudo.
A violência vivenciada por Cecília da Conceição há cerca de 26 anos em Belo Horizonte, infelizmente, não é algo do passado. Em 2025, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), foram registrados 329 casos de sequestro e cárcere privado em Minas Gerais. Um dos casos de maior repercussão foi registrado em setembro do ano passado, quando uma mulher de 28 anos, que estava sendo mantida em cárcere privado pelo companheiro, junto com os filhos de 12, 2 e 1 ano, na Cabana do Pai Tomás, na região Oeste da capital, conseguiu pedir socorro e foi liberta. Outros relatos também chocaram os mineiros: em maio, uma mulher de 39 anos foi resgatada em Arinos, na região Noroeste do estado, após ter vivido trancada e ter sido constantemente espancada. Em novembro, uma mulher foi resgatada em Pingo D’Água, na Zona da Mata, após também ter sido presa e torturada.
De acordo com a delegada Juliana Califf, responsável pela Divisão Especializada em Atendimento à Mulher, ao Idoso e à Pessoa com Deficiência e Vítimas de Intolerância, o cárcere privado ocorre, sobretudo, no âmbito da violência contra a mulher, embora crianças e idosos também sejam vítimas comuns, por apresentarem maior vulnerabilidade. Sequestrados e em cárcere, eles, em geral, enfrentam muita dor, medo e desespero.
“Muitas vezes, quem comete esse tipo de crime são namorados, maridos, ex-companheiros, que se aproveitam da força física para restringir a liberdade da vítima. Em alguns casos, eles dão sinais. Por isso, se a pessoa perceber que o suspeito está alterado, ela precisa tentar não ficar sozinha com ele, tentar sair de perto e não se locomover com ele até locais de difícil acesso”, diz ela.
Escalada da violência
Os crimes de sequestro e cárcere privado, muitas vezes, são o resultado de uma escalada de violência. No caso de Cecília da Conceição, hoje com 48 anos de idade, ela conta que o ex-marido foi se revelando violento aos poucos. No entanto, naquela época, ela não tinha o conhecimento necessário para entender que estava em um relacionamento abusivo, já que as informações sobre o assunto ainda eram escassas, e muitas situações eram normalizadas. Foi a própria Cecília que contribuiu para que essa realidade fosse se modificando aos poucos, trabalhando por mais de 20 anos no acolhimento a mulheres em vulnerabilidade, que enfrentaram o que ela um dia enfrentou.
“Antes de completar um ano de relacionamento com meu ex-marido, ele já mostrava sinais de violência. Ele não me deixava sair sozinha, me levava e buscava no serviço todos os dias. Não me deixava usar camisetas, shorts, não permitia que eu arrumasse o cabelo e nem me maquiasse. Muito jovem, eu acreditava em tudo o que ele dizia”, conta ela.
Logo depois, o homem passou a chegar de surpresa no trabalho de Cecília e, pouco a pouco, a deixá-la dentro de casa, até quando a prendeu de vez com a corrente. Nessa época, a mulher já tinha sido afastada de todos os familiares e amigos e estava completamente isolada. “Ele rasgou meus documentos, cortou todas as minhas roupas com tesoura, cortou meu cabelo com faca, quebrou meus dentes”, relembra ela, chorando muito.
Cecília só conseguiu se livrar do cárcere quando ouviu uma vizinha cantarolando e estendendo roupas no varal. Como havia uma pequena janela no cômodo em que estava, a vítima conseguiu pegar um banquinho e, com muito custo, pedir ajuda. A mulher chamou um grupo para arrombar o cativeiro. Cecília correu com o filho pelas ruas, até achar uma delegacia, contar toda a história dela e ser abrigada. O marido jamais foi preso. Fugiu para outro estado e nunca mais ela teve notícias dele.
“Hoje, sigo minha vida trabalhando, dou palestras para mulheres que sofrem violência doméstica. Eu sei o que é estar em cárcere privado. As mulheres precisam ter o conhecimento que esse tipo de crime geralmente é cometido por alguém que ela conhece. Muita gente pode achar que isso é um ‘cuidado’ do companheiro, mas mata”, diz ela.
Ações necessárias
Pesquisadora associada ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Roberta Fernandes explica que, em geral, as vítimas de sequestro e cárcere privado, assim como Cecília da Conceição, estão isoladas da família. Por isso, quem geralmente detecta que há algo errado são os vizinhos, que passam a não ver mais determinada pessoa pelas ruas do bairro.
“Às vezes, a pessoa tem o hábito de fazer caminhada, ir ao supermercado, e de repente para. É preciso comunicar para que os órgãos responsáveis tomem providências”, afirma ela.
No entanto, mais do que conscientizar as mulheres sobre o que é relacionamento tóxico e fazer denúncias, Roberta frisa que é necessário um trabalho de educação junto aos homens.
“Eles precisam compreender o que é crime, entender de uma vez por todas que eles não têm poder sobre o corpo e vida de nenhuma mulher, que mulheres não são propriedades deles. Grupos reflexivos são importantes para uma maior conscientização do machismo”, afirma ela.
Extorsão mediante sequestro
Os crimes de sequestro e cárcere privado, conforme explica o delegado Marcus Vinícius Vieira, chefe da Divisão Especializada Operacional do Departamento de Operações Especiais (DEOESP), são cometidos para privar a vítima de liberdade, e esse é o objetivo principal, sendo que a maior parte dos casos ocorre no âmbito da violência doméstica. No entanto, há também outro tipo de crime: a extorsão mediante sequestro, que tem como finalidade a obtenção de quantias financeiras.
Nos anos 1990 e início dos anos 2000, costumava ser mais comum uma pessoa, geralmente de uma família rica e poderosa, ser sequestrada e mantida em cativeiro, enquanto criminosos pediam dinheiro aos parentes da vítima. No entanto, atualmente, isso vem mudando, segundo o delegado, principalmente com o avanço da tecnologia.
Atualmente, o mais comum é o “sapatinho”, quando, em geral, a família de um gerente bancário tem a liberdade restrita por bandidos, e o trabalhador é obrigado a ir até a instituição financeira para pegar a quantia solicitada. Outra ação mais atual, conforme o delegado, tem a ver com o golpe do falso anúncio. Nesse tipo de situação, criminosos fazem um anúncio mentiroso de algum bem de grande valor e se encontram com o potencial comprador. Como percebem que a pessoa está disposta a pagar por algo caro, veem que ela tem dinheiro e exigem a quantia, mediante ameaça.
Apesar de esse tipo de crime ainda acontecer, o delegado Marcus Vinícius Vieira afirma que o nível de apuração é muito alto, e os sequestradores, em geral, são descobertos.
“As apurações evoluíram, e hoje o monitoramento é feito das mais diferentes formas. Tivemos várias operações nos últimos anos que resultaram em prisões. Quando há qualquer extorsão mediante sequestro e somos acionados, imediatamente entramos no caso”, finaliza ele.
Saiba como denunciar
Os crimes de sequestro, extorsão mediante sequestro e cárcere privado podem ser denunciados no 190 ou em delegacias da Polícia Civil, além do 181, de maneira anônima.
Por Juliana Siqueira – O Tempo
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