Especialista enfatiza a importância de vencer o preconceito e buscar atendimento

Minas Gerais registrou, em média, três casos de hanseníase por dia em 2024. O dado mostra o aumento de pacientes que testaram positivo para a doença no Estado, que nos últimos dois anos teve alta de 22%, saltando de 1.061 registros em 2022 para 1.294 no ano passado. Nos primeiros três meses de 2025, foram contabilizados 149 casos pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG). Falar sobre a doença é essencial, segundo especialistas, pois muitos pacientes ainda receiam buscar o tratamento por temer preconceitos relacionados à enfermidade.
O Brasil é o segundo país com mais casos de hanseníase no mundo, ficando atrás apenas da Índia, explica o infectologista Flávio Lima. No caso de Minas Gerais, especificamente, o especialista atribui o aumento dos casos a um possível subdiagnóstico no período crítico da Covid. “Quando comparamos os dados com os dos períodos pré e pós-pandemia, vemos que eles são semelhantes”.
Por outro lado, complementa Flávio Lima, o aumento de casos pode ser um sinal “positivo”, pois indica que há mais pacientes em busca do tratamento, algo que antes era postergado. “Por ser uma doença crônica, não temos sintomas agudos na hanseníase. Creio que as pessoas foram aguardando a Covid passar, e, com esse término, o serviço de saúde para a hanseníase aumentou”.
Flávio Lima destaca que, quanto mais rápido for feito o diagnóstico, menor será a chance de o paciente desenvolver sequelas neurológicas e motoras. O diagnóstico tardio para hanseníase ainda acontece pelo fato de haver muitos estigmas em torno da doença.
“Ela é uma doença bíblica: a antiga lepra. Acabou ganhando conotação pejorativa. Algumas pessoas deixam de procurar o serviço de saúde porque elas mesmas têm preconceito e medo do diagnóstico, o que é errado”, esclarece Flávio Lima.
E foi justamente o medo de que a família sofresse preconceito que levou o pai de Hélio Dutra, 57, a sair de casa sem sequer informar aos parentes que havia testado positivo para hanseníase. “Na época, nós morávamos em uma cidade da Zona da Mata. Assim que o papai ficou sabendo que tinha a doença, ele veio para Betim ficar na colônia. Não queria nos prejudicar, pois o preconceito era muito forte”.
O auxiliar administrativo relembra que a tentativa do pai de abafar o diagnóstico foi em vão. “Doía muito a forma como todos nos tratavam. Eu era adolescente e, quando ia jogar bola com os meninos, as pessoas na rua gritavam: ‘Lá vai o filho do leproso’”, lembra.
A colônia a que se refere Hélio Dutra é a Colônia Santa Isabel, na região de Citrolândia, em Betim, na Grande Belo Horizonte. Inaugurada em 1931, integrou, ao longo de seis décadas, a política de tratamento da hanseníase no Brasil, que envolvia o isolamento dos pacientes. Não se sabe quantas pessoas foram internadas nesses hospitais-colônias, mas, depois de 2007, quando foi sancionada a lei federal que concedeu pensão vitalícia aos ex-internos, quase 12 mil pessoas solicitaram o benefício. Hoje, segundo a SES-MG, o atendimento na Santa Isabel é exclusivo a ex-hansenianos que foram internados compulsoriamente.
Com início do tratamento, contágio cessa
A transmissão da hanseníase ocorre quando uma pessoa com a forma infectante da doença elimina o bacilo para o meio exterior por meio da fala, tosse ou espirro – e não pelos objetos utilizados pelo paciente –, contaminando pessoas suscetíveis. De acordo com o infectologista Flávio Lima, também é necessário um contato próximo e prolongado.
O paciente que está sendo tratado deixa de transmitir a doença, cujo período de incubação pode levar de três a cinco anos. A maioria das pessoas que entram em contato com esses bacilos não desenvolve a enfermidade.
A hanseníase não pode ser totalmente prevenida. Para as formas mais disseminadas, é aplicada a vacina BCG, dada aos contatos mais próximos do paciente para evitar que se infectem. Na suspeita da doença, é preciso procurar atendimento médico o mais rápido possível
Manchas na pele são o 1º sinal de alerta
A hanseníase pode ter várias manifestações. De acordo com o infectologista Flávio Lima, elas dependem da imunidade e do fator genético do paciente. “As formas iniciais da doença são o aparecimento de manchas de pele, que são mais claras, mas, eventualmente, vermelhas. Algo que lembra alergia e micose, mas que demora mais tempo para desaparecer”, indica o especialista.
“O paciente percebe que alguns nervos ficam ‘grossos’, especialmente no cotovelo, joelho e na região da cabeça, próximo à orelha. Em casos mais avançados, temos queda da sobrancelha e formação de nódulos debaixo da pele, e, numa fase ainda mais avançada, há perda da sensibilidade”, afirma Flávio Lima.
Os sintomas elencados se dão pelo fato de a bactéria Mycobacterium leprae atacar os nervos periféricos de braços, mãos, pernas e pés. “A infecção pode provocar a inflamação dos ossos e levar até mesmo à perda de membros, em casos mais avançados”.
Todos os casos de hanseníase têm tratamento e cura. É feita uma associação de três antibióticos (rifampicina, dapsona e clofazimina), usados de forma padronizada. Existem dois tipos de tratamento: um tem duração de seis meses e é direcionado a pacientes que estão infectados, mas não contaminam outras pessoas. O outro tem duração de 12 meses e é voltado a pacientes que podem infectar outros indivíduos. O tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS.
Números
Confira os números de casos novos e de óbitos por hanseníase registrados em Minas Gerais, de 2022 a 2025.
- 2022 – 1.061 casos novos e 6 óbitos
- 2023 – 1.219 casos novos e 10 óbitos
- 2024 – 1253 casos novos e 5 óbitos
- 2025 – 149 novos casos e nenhum óbito (dados até 19 de março)
_____________________________________________
Participe do canal da Rede Acontece Minas Gerais no WhatsApp e receba as principais notícias do dia direto no seu celular. Clique aqui e se inscreva.