Polícia Civil informa que há pelo menos 50 prováveis vítimas de Bernardino; homem está preso desde 23 de outubro passado

A história da mulher de 48 anos relatada ao Super Notícia não é a única denúncia contra o ex-padre Bernardino Batista dos Santos. A prisão dele em 23 de outubro, em Juatuba, na Grande BH, trouxe à tona uma série de acusações feitas por possíveis vítimas. A Polícia Civil afirma que pelo menos 50 meninas, jovens e mulheres podem ter sido violentadas pelo homem, crimes ocorridos desde os anos 1980.
E a suspeita das autoridades é que mais vítimas possam aparecer. Para tentar dar voz a essas mulheres que buscam justiça, integrantes do Instituto Mila Brasil prometem afixar, no fim de semana dos dias 9 e 10 deste mês, cartazes com o rosto do ex-padre Bernardino pelas ruas do bairro Paraíso, em BH, do bairro Industrial, em Contagem, e de Juatuba, na região metropolitana BH. Esses eram endereços onde Bernardino atuava quando era padre e de onde partiram denúncias contra ele. O chamado “procura-se” tem como objetivo reunir mais vítimas e aumentar uma possível condenação do ex-religioso.
“Deixo meu apelo a essas mulheres, para que denunciem. É preciso resgatar aquela criança que teve sua infância destruída e que ainda vive dentro de nós, presa ao passado”, alerta Vanessa do Mila, fundadora do instituto. Ela se identifica como uma sobrevivente de violência na infância e, por isso, tem abraçado a campanha pela condenação do religioso, junto às dezenas de denunciantes. O projeto já encontrou 15 novas vítimas após a divulgação do caso nas redes sociais.
Para o inquérito da polícia, porém, apenas os fatos ocorridos de 2012 em diante estão sendo investigados, já que os mais antigos prescreveram. “Bernardino está preso por um único caso, ocorrido em 2016. Precisamos que as vítimas recentes se manifestem”, afirma Vanessa.
O esforço está diretamente ligado à futura pena do ex-sacerdote, caso a Justiça decida condená-lo. Até o momento, o inquérito da Polícia Civil conta com uma denúncia válida: o suposto abuso de uma menina de 3 anos no sítio de Bernardino, em Tiros, na região do Alto Paranaíba, onde ele realizava excursões cristãs, em 2016. A investigação do caso resultou na prisão preventiva de Bernardino em outubro, mas a polícia continua à procura de novas denúncias.
“O estupro de vulnerável tem pena máxima de 15 anos de prisão. Cada vítima vai somar mais tempo à sentença. O juiz responsável também pode considerar como agravante o fato de o ex-padre ter autoridade sobre as crianças, o que pode aumentar a pena em até metade”, explica o advogado criminalista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG) Paulo Crosara.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa do ex-padre Bernardino.
Superar traumas desafia vítimas de abuso sexual
Passadas mais de três décadas do primeiro abuso que teria sofrido do ex-padre Bernardino, a mulher, de 48 anos, que procurou o Super Notícia para contar sua história afirma que ainda luta para se libertar de alguns medos. Medo de homens autoritários, medo de situações nas quais é confrontada, medo de ser julgada pelos outros.
O medo sentido por vítimas de abuso sexual na infância, explica o psicólogo Thales Coutinho, é uma das consequências do trauma que pode apresentar reflexos por toda a vida dessas pessoas. “O estupro é um tipo de violência muito profunda, principalmente pelo excesso de contato físico forçado. Essa pessoa torna-se insegura e tende a desenvolver dificuldades em manter relações interpessoais. Vindo de um padre, alguém que deveria passar confiança, não é raro o fenômeno ‘raiva de Deus’, quando a vítima se questiona por que Deus não a protegeu. Cria-se uma repulsa de tudo o que é religioso”, pondera o especialista.
Coutinho reforça que a recuperação não está diretamente ligada a uma resposta da Justiça, mas exige um trabalho prolongado de terapia. “Uma condenação pode, sim, aliviar o trauma de uma vítima, mas não cura. Isso precisa ser um trabalho dela com ela mesma. Dependendo do nível do trauma, pode se transformar em um desejo de vingança ou, nos casos que prescrevem, se tornar uma segunda violência. É como perder alguém e não poder enterrar o corpo. Um acolhimento especializado é crucial”, afirma.
É por isso que a mulher que acusa o padre de tê-la estuprado aproveita cada lampejo de coragem e se ampara nesses momentos. Uma coragem que nasce da intenção de proteger outras crianças e mulheres que passaram e passam por situações semelhantes.
“Não desejo a ninguém algo sequer próximo ao que passei. As cicatrizes vão permanecer por toda a vida. Eu não quero olhar para trás e ver minha inércia, quero falar para proteger outras possíveis vítimas. Não exatamente do mesmo abusador, mas de tantos outros que estão por aí”, ressalta
Perfil de vítimas
Segundo as denúncias, Bernardino Batista dos Santos tinha preferência por vítimas meninas de 3 a 11 anos. A investigação da Polícia Civil aponta que ele aproveitava momentos a sós com as crianças na sala do sacerdote na igreja de Santa Luzia, em BH, e nas excursões ao sítio em Juatuba para abusar delas. Até agora, dez vítimas foram ouvidas pela polícia. (Com Renata Nunes)
( Conteúdo O Tempo )
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